Por Maura Cristiane Santana Carneiro
A professora de Historia Mary Lucy Murray Del Priore, que é graduada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo e que também possui pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1996), lecionando atualmente na Universidade Salgado de Oliveira, Programa de Pós-graduação Mestrado em História do Brasil, surpreende ao organizar em sua obra A história da criança no Brasil, 15 excelentes textos de autoria de professores, sociologos e pesquiadores sobre a temática da criança no Brasil com muita propriedade. A autora, que já foi premiada inumeras vezes, inclusive pela obra em questão em 2000, com o Prêmio Casa Grande e Senzala da Fundação Joaquim Nabuco e também pela obra História das Mulheres no Brasil como organizadora, em que recebeu o Premio Jabuti em 1998, debruça um olhar especial em seu texto: O cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Imperio, sobre a questão da vivência, sobrevivência e convivência da criança entre os séculos XVI e XVIII .
Lecionando, atualmente, as disciplinas: História e cultura na sociedade brasileira no século XIX e Cultura e História, tem ainda em sua bagagem disciplinas como: História do Brasil Colonial I, História das Idéias (Barroco e Iluminismo em Portugal), História das Instituições (A mulher, a Igreja e o Estado metropolitano no Brasil Colonial), História da Cultura I, o que lhe proporciona suporte para abordar as questões ligadas ao contexto histórico abordado nos textos do livro em questão. Além dos conhecimentos na área de História, o que lhe habilita a análise do assunto, atua em diversas linhas de pesquisa das quais podemos citar: A presença do negro no Brasil e Sociedade, Cultura e Trabalho, com projetos que vão desde o Escravismo brasileiro até a organização da sociedade, incluindo aí a estruturação familiar e de trabalho, desde o Brasil colonial.
A obra A Historia da Criança no Brasil não necessita de conhecimento prévio para seu entendimento, visto que os textos são bem escritos com uma linguagem de fácil compreensão e nítido conhecimento do assunto. Cada autor, teve o cuidado de abordar o tema escolhido de maneira introdutória no inicio de cada capítulo para depois transcorrer sobre o assunto deixando, assim, o leitor em contato com os acontecimentos prévios ao seu texto. Neste sentido o livro, além de ter um conteúdo extremamente informativo, nos remete nitidamente aos séculos XVI, XVII e XVIII, sem que para isso se faça necessário muito esforço. A criança foi colocada como sujeito de maneira a que tenhamos a idéia de protagonista de uma narrativa que até então só se conhecia através dos olhos de estudiosos que identificavam os adultos da época como personagens principais da história. Aqui a criança é vista com olhares de pesquisadores preocupados com a situação da mesma nesta sociedade que pouca importância dedicava a elas na época. Também nos mostra quando e de que maneira a criança começou a ser vista e querida por seus familiares, que em certo momento dedicam mais amor, e solidariedade aos pequeninos, ou creanças, como eram chamados, isto só ocorre no século XIX, como neste relato de Fernando VII da Espanha que escreve para sua irmã Carlota Joaquina, sobre o falecimento de sua filha que impressiona quanto ao teor de emoção que nos remete e de certa forma nos conforta, em saber que já estava aí se criando uma preocupação que até então não ocorria:
...nosotros estamos buenos [...] pero mui afligidos por la imprevista muerte de nuestra hija, [...] no habiendo durado su enfermedad, mas que vinte horas, no se sabe de que he muerto, auque de cree haya sido de no haber podido romper una erupción que se presentó en todo el cuerpo, habiendo-se llenado de pintas, se la há hecho anatomia, y no se la há encontrado nada, pues estaba perfectamente organizada.
Inúmeros são os relatos colocados no capitulo de Ana Maria Mauad uma das colaboradoras da obra, que escreve sobre A vida das crianças de elite durante o Império. Destes a maioria é de um médico de crianças da época chamado Doutor Augusto José Pereira. Diversas eram as enfermidades de que sofriam as crianças, lembrando sempre que as condições de higiene eram extremamente precárias e os cuidados para com a s crianças muitas vezes eram feitos por outras pessoas que não seus próprios pais. Uma das grandes modas da época era o aluguel de amas de leite para cuidar dos filhos da elite, quanto mais posses tinham as famílias, mais pessoas ficavam responsáveis por cuidar dos seus filhos, em que podemos citar alguns nomes como as preceptoras, aias, amas, damas, açafatas, retretas, fâmulas e pajens. Assim, além da influência das avós que costumavam ensinar que criança devia ficar dentro de casa, na peça mais escura, longe do ar e da rua, ainda havia o risco de entregar suas crias a escravos que por raiva acabavam por não cuidar direito dos filhos da elite.
As conclusões ficam a cargo do escritor de cada capítulo, onde colocam as considerações pertinentes ao seu assunto. O livro obedece a certa cronologia, iniciando pela triste trajetória das crianças quinhentistas que viajavam nas embarcações pós-descobrimento (Fábio Pestana Ramos) , passando pela educação dos Jesuítas (Rafael Chambouleyron) , o Cotidiano da criança livre no Brasil entre a Colônia e o Império (Mary Del Priore) ,Crianças esquecidas nas Minas Gerais (Julita Scarano) . A organizadora conta ainda com textos de Aldrin Mora Figueiredo , Ana Dourado , Christine Dabat , Edson Passetti , Esmeralda Blanco Bolsonaro , entre outros. Assim, percebe-se como esse tema foi amplamente estudado e comentado pelos autores, antes de ser colocado a disposição do público que pode ter contato com uma obra extremamente interessante.
O método utilizado pelos escritores, aqui dando destaque a Mary Del Priore, foi o da pesquisa e discussão, em que foram abordados fatos históricos que contam com embasamento documental, como mostram as referências, colocadas também ao final de cada capítulo. Também as notas são colocadas todas ao fim de cada capítulo, o que nos faz ter contato ainda maior com os documentos analisados pelos escritores, além de ser algo muito raro. Para mencionar um exemplo da documentação examinada podemos citar a referência usada por Fabio Pestana no seu capítulo A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas, onde ele utiliza como fonte o documento Castelo Branco Chaves (tradução, prefácio e notas). O Portugal de D. João V visto por três forasteiros. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1989, p 172.
A obra é muito importante a quem deseja um enriquecimento de conhecimento histórico, visto que são dados de extrema relevância, principalmente nas áreas humanas do conhecimento científico. Indicado a todos interessados em conhecer a história pouco citada e comentada das crianças entre os séculos XV e XIX, proporciona perfeitas condições de entendimento ao leitor, por trazer uma abordagem simples e concisa. Como suporte científico é também uma obra extremamente rica em conteúdo histórico que nos deixa a par da verdadeira situação da criança da época, bem como nos auxilia a compreender fatos da contemporaneidade em nossa sociedade. É extremamente bem estruturado em relação ao conteúdo apresentado, trazendo de maneira simples abordagens, que de certa forma são difíceis de discutir. O que mais chama a atenção é a dificuldade colocada pelos autores em conseguir dados relevantes para a construção de seus capítulos, sendo que alguns até mencionam a questão de certos aspectos não serem aprofundados por falta de amostra, portanto mostrando que foi realizada uma pesquisa rigorosa ao atender a proposta da organizadora pelos escritores envolvidos.
Uma obra fascinante e intrigante que nos faz refletir sobre a odisséia brasileira de maneira questionadora e envolvente, de forma que, provoca ainda mais a vontade de saber sobre o passado não tão distante, mas extremamente desconhecido por nossa sociedade como um todo.
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